
Nos anos anteriores a 1322, aos pés do Atos, próximo ao Mosteiro de Vatopedi, viveu um asceta a quem o patriarca Filoteu Kokkinos chamou de homem admirável tanto na práxis quanto na teoria. O santo Nicodemo, o Hesicasta, iniciou sua vida monástica muito mais longe, no monte Auxêncio, perto de Calcedônia, e somente mais tarde, devido às incursões que devastavam aquela região, refugiou-se no Atos. Ali foi descoberto por Gregório Palamas, fascinado por sua conduta, tornando-se seu discípulo por um triênio repleto de jejum, vigília e incessante oração. Das mãos de seu mestre recebeu o grande hábito monástico. O ícone que aqui apresentamos não provém daquela época, mas constitui uma criação portátil contemporânea do Sagrado Mosteiro de Vatopedi, executada com reverência à technropia bizantina que definiu séculos de hagiografia no Monte Atos. O pintor permanece anônimo, como frequentemente acontece na tradição athonita contemporânea, onde a obra serve à santidade da pessoa, relegando o seu criador ao anonimato. No topo, duas inscrições identificam a figura: «O AGIOS NIKODIMOS» e «O VATOPEDINOS», atestando a íntima relação do santo com o mosteiro que o acolheu nos últimos anos de sua vida.
A figura do hesicasta e a linguagem da arte bizantina
Na composição domina o rosto envelhecido, com profundas rugas na fronte e ao redor dos olhos, marcas que a tradição hagiográfica atribui àqueles que passaram décadas na ascese. Os cabelos brancos caem densos sobre os ombros, enquanto a longa barba divide-se em duas pontas distintas, elemento que se repete em muitas representações de anciãos na iconografia bizantina e pós-bizantina. O olhar não busca o espectador. Mira algo além, como se estivesse absorto naquela mesma nepsis mencionada por Filoteu. Veste um manto escuro sobre uma túnica azulada, indicação da veste monástica, destituída de ornamentação supérflua, visto que a sobriedade atua aqui como elemento denotativo da vida ascética. Em sua mão direita, segura uma cruz vermelha, símbolo constante na iconografia de hesicastas e santos, ao passo que na esquerda estende-se um filactério com texto, tal como é habitual nas representações de mestres da oração mental. O círculo da auréola é quase despojado, típico da arte athonita recente, que evita a sobrecarga dourada em favor de uma estética mais austera, quase ascética.
A memória do santo é celebrada em 11 de julho, data que o Mosteiro de Vatopedi vincula indissoluvelmente ao seu nome, pois foi ali que ele passou o período que o consagrou como mestre de um dos maiores teólogos de Bizâncio.
Um ofício em sua honra foi composto por Charalambos Bousias, facto que demonstra que sua memória litúrgica não permaneceu estática no tempo, mas continuou a enriquecer-se.
O ícone, por sua vez, prolonga esta tradição por intermédio de uma linguagem visual que se mantém reconhecível desde o século XIV, transcendendo a mera fidelidade arquivística.
